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Biografia

Aos 7 anos, sem nunca ter podido frequentar a escola, Joaquim Moreira da Silva começou a trabalhar como moço de lavoura. Ainda criança cegou de um olho num acidente com uma foicinha, o que lhe valeu a alcunha de Moreira Cego, apesar de manter a visão do outro olho.

Aos 18 anos Moreira da Silva aprendeu a arte de carpinteiro no Porto, para onde se deslocava diariamente de comboio, e onde aprendeu a ler e a escrever num curso noturno. Nascia o Poeta Carpinteiro, que podia agora registar por escrito a sua poesia. O curso da sua vida mudou radicalmente, com o acesso à leitura e escrita, e o contacto com as lutas operárias e a ideologia anarquista. A leitura das “obras dos grandes sábios”1 trouxe-lhe vasta cultura geral e política, e uma melhor compreensão do mundo, enformada também pelo contacto com os trabalhadores e as suas lutas. Sedento de justiça e com um espírito lutador, com as suas ações e com os seus versos não mais deixou de denunciar as injustiças e de lutar contra elas. O poeta colocou o seu talento ao serviço dos seus ideais, conjugando na sua obra as caraterísticas da poesia popular com um conteúdo de grande consciência social e de luta por um mundo melhor e mais justo, que passava muitas vezes pela denúncia de casos concretos. Como ele conta, e a imprensa testemunha, o povo chamava-lhe, por isso, o “pai dos pobres”2 3.

No final dos seus dias de trabalho, na sua própria casa, em Vilar, Joaquim Moreira da Silva, ocupava os serões ensinando os conterrâneos a ler a escrever. Criou mesmo um método de leitura, que publicou num folheto de cordel, e editou alguns outros folhetos didáticos.

Aos 23 anos casou com a camponesa Maria Rosa Marques. O primeiro filho do casal morreu com apenas 5 meses. O segundo, Alberto Moreira, tipógrafo de profissão e amante de literatura (escreveu a biografia de diversos escritores e colaborou com jornais), editou várias obras do seu pai. Moreira da Silva teve três netas, que, com a sua esposa, ajudou a criar por terem ficado órfãs de mãe muito cedo. A morte da esposa, em 1949, fê-lo assumir esse apoio com mais intensidade. O seu profundo amor e a sua enorme dor pela perda da mulher amada ficaram registados em versos.

Joaquim Moreira da Silva morreu em 12 de dezembro de 1960, com 74 anos. O caixão foi coberto com a bandeira da Associação Cultural e Recreativa Honra e Dever de Vilar, para a qual escrevera o hino. A sua morte foi noticiada em vários jornais: O Comércio do Porto, A República, O Século e O Norte Desportivo. Os seus versos ficaram na memória dos conterrâneos que continuaram a cantá-los nos encontros familiares. Os seus feitos ficaram no seu coração. O Poeta Carpinteiro e “pai dos pobres” deixou uma forte marca em todos quantos privaram com ele. Tivesse a sua obra podido correr o país e essa admiração teria chegado ainda mais longe.

Joaquim Moreira da Silva, o Poeta Carpinteiro, tem uma obra poética, que se enquadra na tradição da poesia popular, quer pela sua estrutura formal, quer pela maioria dos temas que tratou, quer, ainda, pelo modo como foi distribuída e como circulou.

  1. No poema "A Minha Vida" in Moreira da Silva, Joaquim (1987). Joaquim Moreira da Silva Antologia poética. Vila do Conde: Câmara Municipal de Vila do Conde, p. 362. ↩︎
  2. No poema "A Minha Vida" in Moreira da Silva, Joaquim (1987). Joaquim Moreira da Silva Antologia poética. Vila do Conde: Câmara Municipal de Vila do Conde, p. 364. ↩︎
  3. Na notícia, "Morreu «O Poeta-Carpinteiro» de Santa Maria de Vilar que, sendo analfabeto até aos vinte anos, deixou mais de quarenta publicações em verso!" (14 de dezembro de 1960), O Comércio do Porto, in Moreira da Silva, Joaquim (1967). A Lira do Povo. Porto: Tipografia do Carvalhido, p. 99. ↩︎